Eu havia saído mais cedo da escola hoje. O que não
era de se admirar pelo qual mês estávamos: Dezembro. Normalmente só tinham
aulas na primeira semana desse mês, e logo sairíamos em férias de inverno. Como
nosso inverno era muito rigoroso, as escolas europeias tomavam essa postura, o
que era uma benção. As ruas, estradas e casas se abarrotavam de neve e frio que
era praticamente impossível sair para algum lugar. Esses últimos dias de aula nunca eram
completas, geralmente alguns professores faltavam, alguns por se darem “férias”
e outros por compromissos inadiáveis.
O que era o caso do meu professor de Literatura
Irlandesa. O dia parecia mais noite pelo céu escuro e pela onda de frio, mas
ainda não havia caído uma neve se quer. Como eu fazia todos os dias assim que
saia da escola, eu ia para o restaurante que era da minha família. Por ter
herdado o gene culinário de meu pai, eu – modéstia parte – era uma excelente
cozinheira. Por isso, eu ajudava na cozinha do restaurante. Eu encarava aquilo
como um trabalho e também uma maneira de relaxar. Ao cruzar a esquina que me
dava acesso ao centro de Mullingar, eu avistei o estabelecimento.
O lugar se destacava das demais construções por sua
cor verde, apesar de apresentar o mesmo modelo um tanto rústico como as outras.
Dava para se ler claramente as palavras “Mullingar Restaurant” em uma letra
bastante elegante e dourada o que chamava atenção de qualquer pessoa. A grande
porta que dava acesso ao interior do restaurante era feita de carvalho claro e
assim que adentrava visualizava um grande espaço com acabamentos em madeira
cobertos por mesas e cadeiras de mesmo material. Quem se sentava próximo à
porta desfrutava de ter uma visão da rua, já que possuía uma grande janela.
Mesmo sendo rústico, o lugar era bem sofisticado, o
restaurante havia lustres – cada um media certa distancia do outro. Havia ainda
um pequeno bar, destinados apenas as bebidas. O balcão separava os clientes das
diversas bebidas que se apresentavam convidativas aos clientes que as
apreciavam. Adentrando um pouco mais notava-se a presença de uma grande lareira
e em sua frente dois sofás cor de vinho. Geralmente os clientes mais jovens
gostavam de ficar ali, já que apresentava um ambiente mais descontraído. O
estabelecimento ainda tinha algumas plantas para alegrarem um pouco aquele
visual marrom.
Indo um pouco ao leste, notava-se uma grande porta
marrom com duas janelinhas redondas. Ali tinha-se acesso a cozinha, sem perder
tempo, apressei ainda mais meus passos. Assim que eu entrei avistei panelas,
fogões, frutas nas bancadas, carnes sendo preparadas e por fim, avistei meus
amigos cozinhando. Eu os chamava de minha segunda família, já que passávamos
bastante tempo juntos. Sorri ao notar que todos me desejavam boa tarde e fui
até os armários para por minhas coisas e por meu avental. Sem perder tempo, prendi meus cabelos para que não caísse nenhum
fio nas comidas que eu iria preparar.
- Chegou cedo, Mary. Andou fugindo da escola? – Mark perguntou em um
tom bastante brincalhão.
- Fugir da escola? Mary? Até que parece que você não a conhece, Mark.
– Sasha debochou.
- Aposto que se avisassem aos alunos que a escola abriria no período
de férias ela iria todos os dias. – Completou Nathan.
- Eu gosto de estudar mesmo, o que há de errado nisso?
Era sempre assim.
Mark, Sasha e Nathan adoravam me abusar por eu ser... Digamos assim, estudiosa
– o termo nerd é ofensivo. – eu conhecia meus companheiros de trabalho há
bastante tempo. Apesar de serem mais velhos que eu, eles nunca me tratavam como
uma garotinha. Mark era o tipo de pessoa que você pode contar sempre, ele é
bastante engraçado e se precisar de ajuda, ele sempre estará lá. Ele era bonito
mesmo eu achando que não fazia o meu tipo, mas as garotas da minha escola às
vezes apareciam aqui só para vê-lo. Mark tinha os cabelos negros e a pele um
pouco bronzeada e seus olhos eram cor âmbar. Era o tipo de aparência que não se
encontrava nos moradores de Mullingar.
Nathan era mais reservado, e era o melhor amigo de
Mark. Foi uma das pessoas que eu mais
demorei para conquistar. No inicio, ele trocava apenas algumas palavras, mas à
medida que o tempo foi passando, acabei conquistando sua confiança e agora, éramos
bons amigos. Nathan era muito calmo e geralmente, quando alguma coisa dava
errado, ele era a pessoa que arranjava solução para tudo. Ao contrário de Mark,
sua beleza era extremamente comum. Cabelos castanhos, olhos castanhos e pele
branca. Havia uma única coisa que o diferenciava, Nate – como nós o chamávamos –
tinha uma tatuagem de dragão no ombro esquerdo. Ele também tinha um pelo
físico, quando não estava no restaurante, ele gostava de ir à academia. Eu só
sabia desses detalhes porque Sasha, sua namorada me contava.
Definitivamente se eu tinha uma segunda melhor
amiga era a Sasha. Ela tinha vinte e dois anos. Sasha tinha seu cabelo natural
loiro, mas desde os vinte ela pintava de ruivo. E devo acrescentar que ela
ficava melhor ruiva do que loira. Dentre o pessoal do restaurante eu a conhecia
há mais tempo. Quase quatro anos, embora ficássemos mais amigas quando ela
começou a trabalhar aqui. S. era uma garota que lhe dava os melhores conselhos
do mundo. Sempre lhe escutava e se você se sentisse mal, ela estava lá pra te
animar. Perdi a conta de quantos conselhos bons ela havia me dado desde que meu
pai faleceu.
- As suas aulas terminam quando? – Sasha me perguntou enquanto me
passava algumas verduras que eu deveria cortar.
- Amanhã. Tenho prova de física. – Suspirei cansada.
- Então porque veio? Deveria ter ficado em casa estudando. – Nate
indagou do outro lado.
- Vocês sabem, se eu não viesse, Cassandra não iria gostar.
- Mary, a gente pode cuidar daqui. Era melhor você ir para casa
estudar. – Mark aconselhou.
- Ah, eu posso estudar de noite, o assunto nem é tão difícil assim... –
Franzi a testa. – Preciso de uma faca amolada.
- Na mão. – Mark me entregou. – Sério, como você consegue estudar de
noite? Você sai daqui às 11.
- Não me diga que você anda estudando na madrugada? – Sasha
pressionou.
Eu sabia que se
falasse sim, receberia uma bronca de todos os meus colegas. Então quando a
porta se abriu e vi a figura da minha madrasta, eu agradeci secretamente, porque
assim eu não precisava responder nenhuma pergunta. Cassandra olhou para todos
nós e sorriu. Ela ficava incrivelmente alta com aqueles saltos, seus cabelos
negros eram escorridos. Cassandra dava uma grande primeira impressão para
qualquer pessoa.
- Vim avisar que sábado teremos um evento. Maura Gallagher pediu para que
nós preparássemos alguns salgados e doces para o seu filho que está voltando. Parece
que querem uma dar uma festinha ao garoto. Portanto, teremos que preparar essa
lista aqui. – Cassandra entregou para Sasha a lista.
- Cassandra, é muita coisa. Não vai dar tempo para terminar e ainda
sim ter os pedidos do restaurante. – Sasha comunicou.
- Não tem importância, Mary fará hora extra sábado e adiantará
bastante coisa.
- Mas... Sábado é o dia de folga dela. – Mark olhou preocupado para
mim.
- Mary, querida, você se importa de fazer hora extra sábado? –
Cassandra sorriu.
- Humm... Eu posso vim. Não tem problemas.
- Ótimo! Agora vão trabalhar. Sem conversa.
Assim que
Cassandra saiu, Mark, Sasha e Nate suspiraram cansados e olharam para mim. Eu
sabia o que viria em seguida, por isso, nem me dei o trabalho de olhar para
eles, continuei cortando as verduras que haviam me pedido há alguns minutos
atrás.
- Como você não consegue ver que ela está te tratando como uma
escrava? – Sasha foi a primeira a falar
- Ela não me trata como escrava... Olha não tem nada demais eu não
tirar meu dia de folga sábado.
- Você não tira folga há dias. Todo final de semana ela tem alguma
coisa que te faz prender aqui. – Mark argumentou.
- Mas foram motivos importantes. – Contra-ataquei.
- Encerrar o chão? Limpar a cozinha? Regar as plantas? Por favor,
Mary, acorda. – Nate falou.
- Olha, família ajuda uns aos outros, certo?
- Me diga uma vez que ela ou as filhas nojentas te ajudaram? – Sasha
perguntou, como eu demorava para responder ela continuou. – Viu? Elas nunca
fizeram nada por você.
- Elas ficaram comigo quando meu pai morreu.
- E seus avós? – Mark indagou.
- Nunca os conheci e nem sei onde eles estão. – Sorri tristemente.
- Você ainda vai acordar, Mary. E verá que o que sua madrasta faz é
errado. Só espero que não seja tarde demais.
Notas
finais: Olá pessoal! A fic No
Pique De Londres acabou, e vai me deixar muitas saudades. Vou guardar cada capítulo
e cada comentário de vocês no fundo do meu coração. Mas essa fic também
promete ser muita boa. Aparentemente parece um conto de Cinderella, não é
verdade? Contudo, o que eu estou preparando não deixará que a fic fique no
estilo clichê do conto. Acontecerá grandes coisas que tornará essa fic mais
surpreendente que No Pique De Londres. Obrigada a todos que estão
acompanhando, e eu espero que vocês deixem comentários dizendo o que estão
achando. Xx
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